O Mendigo

01/11/2012 17:08

    O homem cheirava mal. Creio que não se lembrava do último banho que havia tomado. Cabela emaranhado e sujo, a roupa ensebada grudando no corpo, o aspecto era terrível; todo mundo se afastava daquele mendigo. Era "caso de polícia". Creio que por isso, aquele meu amigo que é da polícia federal e temente a Deus, e de um grande coração, deu atenção ao coitado que, aproximando-se, pediu um prato de comida. Eles estavam próximo ao restaurante do posto de gasolina onde o irmão, na companhia da esposa aguardavam o carro que estava sendo lavado, lubrificado e perfumado para o fim de semana.

    - Você está com fome? Perguntou o homem de Deus.

    - Sim, com muita fome. Respondeu o mendigo.

Quase sem conseguir aspirar perto do imundo, ele comentou:

    - Rapaz, você está mal, heim? Que situação! Onde você mora? De onde você veio? Tem algum parente por aqui? Existe alguém por você?

    - Não, não tenho ninguém; sou um miserável. Respondeu o sujão. 

    O nosso irmão então mandou preparar um marmitex caprichado e, enquanto esperavam, o mendigo enfiou a mão no bolso do paletó rasgado, procurando alguma coisa. Puxou um papelzinho amassado, estendeu para o amigo dizendo: Este é o telefone de um cunhado meu que mora em Goiás. Tem muitos anos que não falo com ele. O meu povo não gosta de mim.

    Nosso policial apanhou o número, e pelo celular conseguiu o contato:

    - Olha meu amigo, estou falando de Rondônia, eu estou aqui com um parente seu cujo nome é......

Do outro lado responde uma voz:

    - Por favor, não diga que você falou comigo. Não queremos nada com esse sujeito, ele é um ordinário, bêbado, e até agora só deu trabalho para a família. Queremos que ele morra! E desligou.

    - É, disse o nosso irmão, parece que você está mais abandonado que parece. Não queria estar na tua pele.....

    Veio, nesse momento, a comida que o mendigo devorou em dois tempos. A seguir, disse o bom amigo:

    - Entra aqui no carro, eu vou te levar pra minha casa. A sua esposa quase caiu de costas:

    - O quê? Vai mandar esse homem entrar no nosso carro limpinho? Vai levá-lo pra nossa casa?

    - Sim, vamos ajudá-lo.

Abrindo todas as janelas do veículo para entrar todo o ar possível, lá vai o querido casal com o Sujismundo, no banco de trás.

    Ao chegar em casa o marido pediu para que a esposa, por favor, providenciasse uma toalha, sabão, e uma roupa limpa, entregando ao mendigo e, apontando o banheiro, disse:

    - Não tenha pressa. Tome um banho caprichado, esfregue toda a sujeira acumulada, troque de roupa, depois entre naquele quarto da edícula, e durma um bom sono. Depois a gente conversa.

    Depois de um longo tempo com água e sabão no lombo, para remover toda a sujeira acumulada, finalmente sai do chuveiro o mendigo. Agora, outra figura, sem sombra daquela coisa que havia entrado para o banho. De roupa limpa, cabelo penteado, barba feita, ele estava até bonito, agora. 

    O hospedeiro, depois de elogiar o seu novo estado, diz: - Entra naquele quarto da edícula e descansa, dorme um bom sono. Só temos compromisso às 07 da noite.

    Obedientimente o homem entra para o quarto, deita-se na cama macia e limpa e dorme profundamente. Ronca como um leão.

     Vencido o prazo de descanso dado pelo nosso bom policial, o ex-mal cheiroso é despertado. Toma um lanche com o casal e ouve o seguinte:

    - Você vai conosco assistir a um culto na igreja a qual pertenço.

    - Sim, Senhor. Responde o homem.

    Após o lanche, lá vão os três novamente entrando no carro. Só que desta vez a esposa do nosso irmão não precisa abrir todos os vidros do carro e nem tapar o nariz. A situação está muito melhor.

    Na igreja evangélica, o mendigo ouve com atenção a pregação da Palavra de Deus; participa de todas as partes do culto e, na hora do convite para que se dirijam à frente aqueles que desejarem receber Jesus como Salvador e Senhor, o mendigo, com lágrimas, muito emocionado, se levanta e, para surpresa do casal, vai para a frente e de joelhos toma a sua decisão.

    No dia seguinte ele diz para o nosso irmão:

    - Olha, eu tenho uns conhecidos que moram em Cerejeiras e possuem uma serraria lá. Não sei se eles se lembram de mim. Se o Senhor me arrumar o dinheiro da passagem eu vou até lá e se encontrá-los, vou pedir trabalho para eles.

    O bom homem lhe dá então o dinheiro das passagens de ida e volta, caso não encontrasse os conhecidos.

    Um mês, dois, três...e nada de notícias do sujeito. Ele então resolveu ir lá e, descobrindo os proprietários da serraria perguntou:

    - Apareceu por aí um indivíduo com tais caracteristícas, etc?

    - Sim, foi a resposta. Ele está trabalhando aqui, está muito feliz, e diz que é crente. Todo domingo vai para a igreja dele com uma Bíblia embaixo do braço.

    Imagino a alegria do nosso irmão com tal informação. Com seu gesto de amor, havia salvo uma vida desprezada por todo mundo. 

    Isso faz-me lembrar do texto bíblico de Atos quando Pedro e João, ao subir para o templo para oração, depararam com um coxo que era posto todos os dias à porta, para pedir esmolas aos que passavam. Quando ele viu os homens de Deus, clamou por uma caridade. Pedro e João se aproximaram do pobre. Aproximaram-se, não se afastaram. Quando o coxo lhes pediu uma esmola teve como resposta: "Não temos nem prata e nem ouro; mas o que temos, isso te damos: em Nome de Jesus, levanta-te e anda!" Com isto, a benção aconteceu na vida daquele doente.

    Temos nos aproximado dos miseráveis do nosso caminho? Temos estendido a mão ao aflito e necessitado? Temos nos aproximado ou nos afastado dos pobres e famintos?

    Mais um ano termina. É tempo de refletir: Como anda o nosso amor Cristão para com os que mendigam o pão, a caridade e o amor de Deus? Se somos verdadeiramente Cristãos, esse amor fruirá naturalmente dos nossos corações. Foi para isto que Jesus veio.

 

Texto extraído do livro Moral da História - Luciano Breder

28/10/2012